Reportagens mostram irresponsabilidade do discurso de Jair Bolsonaro e de outros que, a exemplo dele, insistem na tese de que a Covid-19 é doença grave apenas para idosos e pessoas que têm doenças pré-existentes, as chamadas comorbidades.

Se fosse assim deveríamos ficar tranquilos e embarcar na charanga homicida de Bolsonaro? A resposta seguiria sendo não.

Augusto Aras, procurador-geral da República mandou parecer contestando a liminar concedida por Roberto Barroso, que proibiu a veiculação da propaganda “O Brasil não pode parar”. O doutor sugeriu que o terreno das respostas científicas ao novo coronavírus é movediço e que não haveria um saber realmente firmado a respeito. A questão estaria no fato do isolamento social não ser uma escolha em favor da vida e da saúde.

Ao assinar aquele absurdo, está apenas deixando as suas digitais no universo da infâmia. A contabilidade dos doentes e das internações desmoraliza a linguagem gelatinosa do procurador-geral. Embora a mortalidade por covid-19 seja maior entre idosos, metade dos casos graves da doença ocorreu em pessoas com menos de 60 anos.

Segundo estatísticas do Ministério da Saúde, até o final de abril, último dado disponível, 2.355 pessoas foram hospitalizadas em hospitais com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causada pelo coronavírus. Dessas, 1.193 (50,6%) não eram idosos. Os números detalhados por faixa etária mostram que 816 internados tinham entre 40 e 59 anos e 352, de 20 a 39 anos. As crianças e adolescentes, que raramente apresentam complicações, têm número baixo de internações, mas não estão completamente fora de risco. Foram 25 casos graves na população de 0 a 19 anos, incluindo algumas mortes.

De acordo com especialistas, parte dos internados abaixo dos 60 anos faz parte de outros grupos de risco, como pacientes com doenças crônicas. Há, porém, um número crescente de pessoas jovens e saudáveis, sem nenhuma doença preexistente, que também desenvolvem pneumonia e outras complicações da infecção. Vários pacientes na faixa dos 40 anos, sem comorbidades ficaram em estado muito grave. O fato de a letalidade ser maior em pessoas com fatores de risco não deixa jovens e pessoas saudáveis isentas de desenvolverem complicações.

A diferença está no fato de, por estarem internados, os pacientes têm mais chances de sobreviver porque têm uma maior reserva pulmonar para aguentar a doença. Quis o destino, para nossa má sorte, que o mal tomasse o planeta no momento em Jair Bolsonaro ocupa o Palácio do Planalto.

Do seu exclusivo ponto de vista, poderia ser a chance de liderar um esforço nacional de combate à doença. O político medíocre poderia até ambicionar o estatuto de estadista. Mas ele está ocupado unicamente em falar para a sua galera, em atender às demandas cartoriais de meia-dúzia de “empreendedores enricados” e em vender teorias conspiratórias. Isso evidencia a estupidez da tese do isolamento vertical como medida protetiva única. Ainda que, ações para proteger idosos e pessoas com comorbidades se façam necessárias, é claro que elas não substituem o distanciamento social.

Ainda que os idosos sejam a maioria dos mortos, as outras faixas etárias também ocupam os leitos hospitalares, inclusive os de UTI.  Atuar em favor de uma contaminação em massa corresponde a mandar a população inteira para o matadouro. Nada menos de 50,6% dos pacientes, mais da metade, tinham menos de 60 anos. Estavam na faixa entre 40 e 59 anos o enorme índice de 34,6% do total de internados.  E a internação, como se sabe, só se dá quando o quadro é considerado grave. Mais: 14,9% dos hospitalizados tinham entre 20 e 39 anos. Alguns desses doentes tinham comorbidades, mas, como atestam os médicos, é crescente o número de pessoas saudáveis que acabam evoluindo para quadros graves.